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Sobre a complicação de seguir em frente, quando seu passado não deixa você.

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Talvez porque eu tenha um lado Norman Bates, de vez em quando fico pensando nesses casos de bullying que acabam em tragédia, nos quais as vítimas, transtornadas, acabam perdendo o controle e cometendo uma loucura, do tipo pegar uma arma, invadir uma escola e chegar atirando em todo mundo indiscriminadamente, sejam amigos ou desconhecidos. Quando vemos uma notícia dessas na mídia, nossa primeira reação é a revolta, afinal, um louco invadiu um lugar atirando em pessoas inocentes. Que direito ele tem de agir assim? O fato dele sofrer bullying ou preconceito justifica o ato?
Tava lembrando de um caso que aconteceu aqui no Brasil há muitos anos, não me lembro quando e nem onde foi, só que foi aqui no país. Um garoto muito obeso que, na escola era motivo de piada dos “colegas”. Os meninos zombavam dele, lhe davam apelidos pejorativos, com as meninas não era diferente, as que não o humilhavam simplesmente o ignoravam por ele ser fora dos padrões. Foi então que, cansado das humilhações diárias ele tomou uma decisão: emagrecer a todo o custo. E foi o que fez. Depois de uma boa dieta ele perdeu muito peso, ficou magro e satisfeito, acreditando que assim as piadas cessariam, mas não foi isso o que aconteceu. Não me lembro se a reportagem disse ou não o método que ele usou para emagrecer, mas parece que conseguiu bem rápido, coisa de poucos meses, mudou completamente o corpo, mas os resultados não foram bem como ele esperava.

Ao verem o rapaz tão magro de uma hora pra outra, as pessoas encontraram motivos para novas piadas, dessa vez tirando sarro com sua magreza, perguntando se ele havia bebido vinagre, murchado ou coisas do tipo. Decepcionado, confuso, revoltado e magoado, sem entender o por que, mesmo estando agora "nos padrões" ainda era motivo de piada, o garoto surtou. Voltou para a escola com uma arma, atirou em várias pessoas, não me lembro se conseguiu matar alguma e em seguida cometeu suicídio na frente de todos. Mais tarde descobriu-se que ele não era lá muito certo das ideias. Isolado, solitário e vítima de piadas, passava a maior parte do tempo em casa, sem amigos e era fã de armas e munições. Se não me engano o pai tinha uma coleção e foi assim que ele teve acesso. Mais uma vez, sabendo desses detalhes, nossa reação ee a revolta. Então o rapaz era um louco, então ele tinha problemas, então ele era o vilão da história toda.

Quando me lembro desses caso, não defendo a atrocidade que o rapaz cometeu. Na minha opinião, mesmo sofrendo como ele sofria, isso não justifica o que ele fez, mas isso não significa que eu o rotule como um vilão, eu o vejo como uma vítima. Desorientado, problemático, mas sim, uma vítima, tanto quanto as pessoas inocentes as quais ele chacinou.

Acho que de certo modo consigo me colocar no lugar dele, no lugar de muitos outros que passaram ou passam por situações semelhantes. Sofri muito bullying na infância, fui motivo de piada pelos mais diversos motivos. Por ser tímido demais, por ser quieto demais, medroso, por não gostar de futebol, por não me interessar por meninas, por ser "feio", de acordo com os padrões impostos pela sociedade. Certa vez, no colégio, uma "amiga" colou um papel com "ME CHUTE", nas minhas costas sem que eu notasse. levei pontapés por quase cinco minutos antes de perceber a brincadeira de mal gosto. E como parte das pessoas que passam por isso, na hora fingi que não me importei, que não me magoei, que aquilo não doeu em mim de uma forma absurda. Não os chutes, mas a atitude dela, de uma pessoa que eu confiava e à qual queria bem. Noutra ocasião, levei um soco de um "amigo", que sentiu inveja por eu ter sido elogiado pela professora de artes na frente da classe. Enfim, tenho uma coleção de pequenas histórias inúteis de serem desenterradas. Mas me lembro delas e acho que sempre me lembrarei. Geralmente a maioria das pessoas que machucam você seguem sua vida normalmente, enquanto a vítima acaba com cicatrizes às vezes bem difíceis de se fecharem. A gente segue a vida, alguns melhor do que outros, mas são marcas que ficam e que carregamos sozinhos. 

Se já pensei em me vingar? Sim, claro, todo o tempo. O fato de você seguir em frente com sua vida não significa que essas coisas não tenham deixado lacunas em você. A sensação de injustiça sempre permanece em maior ou menor grau. Se já pensei em me vingar de forma violenta? Se ver essas pessoas mortas me agradaria? Sim. Se teria coragem de fazer isso com minhas próprias mãos? Não sei, provavelmente não, mas consigo sentir o suficiente para me colocar no lugar de pessoas humilhadas e saber perfeitamente como elas se sentem, o que pensam, o que as motivou a agir da forma que agiram. E nesse momento me compadeço delas, não nego que lhes dou razão, que encontro justificativas em meio ao caos para elas chegarem onde chegaram. 
Logicamente existem casos e casos. Fanatismo religioso, racismo, homofobia. Não me entendam mal, não incluo esses casos, não me coloco no lugar dessas pessoas e nem busco compreende-las, não é desse tipo de pessoas que estou falando. Na verdade, como sempre, já nem sei mais do que estou falando ou os motivos que me levaram a querer escrever sobre isso. Talvez porque mesmo depois de muito tempo, velhas feridas ainda possam doer por um motivo ou outro e são nesses dias que você se lembra de que ainda carrega certas coisas com você. Talvez porque ainda hoje, beirando os 40 eu ainda passe por isso de vez em quando, ser rejeitado pelo outro por não me encaixar nos padrões, por não ter ou não ser o que as pessoas esperam de mim. Talvez porque essa semana eu tenha sido decepcionado novamente ao acreditar que, independente dos meus problemas, das minhas complicações, a outra pessoa faria um esforço para enxergar além.

Não, não vou matar ninguém, tenho mais o que fazer. Coleciono histórias em quadrinhos e bonecos de ação, não armas. Mas lidar com as pessoas sempre faz minha fé nelas morrer um pouquinho mais a cada dia. A vontade de ficar no meu canto e não me importar com ninguém mais além de mim, vez em quando aflora forte.




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