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Traumas pequenos de gente pequena - Cartas

domingo, 10 de janeiro de 2010




Durante a minha infância, minha mãe sempre leu histórias em quadrinhos pra mim. Havia noites em que passávamos horas deitados na cama com ela lendo e relendo pra mim as histórias da turma da Mônica ou do pato Donald. Ela tinha prazer em ler pra mim e eu igualmente de que ela o fizesse.

Foi numa das contra-capas de uma dessas muitas revistinhas que uma vez, surgiu uma promoção. Não me lembro bem dos detalhes agora, mesmo porque na época do acontecido devia ter o meus 4, 5 anos de idade. Morávamos sozinhos em uma casa no centro da cidade.

Era uma dessas promoções tipo sorteio. Você recortava o cupon, enviava a cartinha e concorria à uma coleção de brinquedos. Obviamente que no meu ponto de vista inocente, o sorteio era irrelevante, na verdade acho que eu nem sabia o que significava isso. Pra mim era só mandar a cartinha e esperar ansiosamente pela chegada dos brinquedos na minha casa.



O bom de se ser criança é a sua infinita credulidade em algumas coisas, sua fé inabalável de que o que você espera que aconteça vai acontecer. Acredito que se conseguíssemos manter isso depois de grandes, conseguiríamos atingir muitos objetivos desejados. Muita gente diz que faz isso mas não, nunca é igual a fé de uma criança, quando ela realmente acredita em algo.
Quando a minha mãe viu a promoção ficou super empolgada. Me mostrou os prêmios, me fez escolher os brinquedos, me fez acreditar que ganhar aquilo tudo seria a coisa mais fácil do mundo, me encheu de esperança.

Pra enviar a cartinha pro sorteio, você tinha que recortar as fotos dos brinquedos que você queria, colar no cupon da revista e depois fechar o envelope, lacrando-o com um ossinho de papel que também vinha junto na revista. Eu achava esse processo todo a coisa mais mágica. Escolher os brinquedos que eu queria, colar aquelas fotinhas coloridas no cupon e depois colar o ossinho no envelope. Queria acompanhar cada momento, desde o recorte dos brinquedos até o fechamento do envelope. Eu me imaginava fazendo isso junto com a minha mãe, nós dois fazendo isso juntos, colando, escolhendo os brinquedos,   colocando a carta na caixa dos correios.

Eu disse para ela que queria muito fazer isso, fazer ou no mínimo acompanhar o processo, ver ela fazendo, queria mais do que tudo no mundo.
Já era noite e íamos dormir. Eu a fiz prometer que no dia seguinte, ela me esperaria  para que fizéssemos tudo juntos. Eu queria muito, muito mesmo. Disse isso pra ela um monte de vezes, a fiz prometer. Ela disse que sim, jurou que me esperaria para que eu pudesse ver ela preparando toda a cartinha pra mim.

Naquela noite eu mal consegui dormir, imaginando aquele monte de brinquedos e principalmente imaginando a cartinha sendo feita, colando as fotos, o envelope e tal.
Na manhã seguinte acordei eufórico. Queria tomar o café, ir no banheiro e logo depois sentar com ela na mesa da cozinha para fazermos a cartinha, havia sonhando com isso a noite toda.
Fui empolgado procurar a minha mãe, louco pra pedir pra começarmos tudo logo. Fui até a cozinha e ela estava lá, sentada na mesa com um sorriso no rosto.

Dei mais alguns passos em direção a ela e foi quando vi na mesa, algo que fez o meu mundo desabar. A cartinha já estava toda pronta, fechada, lacrada e selada, já pronta para ser enviada. Ela havia acordado bem mais cedo do que eu, pra preparar a cartinha correndo e me fazer uma surpresa que, no ponto de vista dela iria me alegrar.
Quando eu vi aquilo o meu sorriso sumiu na hora, o brilho dos meus olhos apagou e na hora as lágrimas começaram a descer.

Tudo bem, ela quis me fazer uma surpresa, quis me poupar o trabalho, mas puxa vida, eu havia falado tanto para ela que eu queria fazer alguma coisa... ou pelo menos acompanhar tudo, saborear cada momento. Era importante pra mim, pode parecer idiotice, mas era muito, muito importante mesmo.
Eu ficava olhando pra cartinha e comecei a choramingar. Perguntei a ela por que ela não me esperou e disse que eu até sonhei que estava montando a carta, disse que não era desse jeito que eu queria. A expressão dela mudou imediatamente.

A reação dela foi pra mim, pelo menos na época, a mais inesperada possível. Ela simplesmente surtou. Levantou-se da mesa e começou a me xingar, a jogar um monte de coisas na minha cara. Porra! Eu só tinha 5 anos acho.
Diante da reação dela eu comecei a chorar compulsiva e desesperadamente. Um misto de decepção e medo. Foi então que ela fez uma coisa a qual até hoje não consigo esquecer, porque foi como se ela estivesse fazendo aquilo em mim.

Em meio ao seu surto, ao seu desabafo, ela pegou o envelope e começou a picá-lo em pedacinhos, furiosa, gritando e despejando tudo. Quando ela começou a rasgar o envelope, furiosa, eu comecei a berrar, não por ela, mas pelo envelope. Eu não conseguia tirar os olhos dos pedaços de papel caindo no chão, se espalhando pela cozinha. Eu gritava desesperadamente pra ela parar, implorava, pedia por favor, pelo amor de Deus para que ela parasse de rasgar o envelope. Aquilo não era só um envelope, não pra mim na época. Tinha muita coisa boa depositada lá.

Mas ela não parava. Picou o envelope gritando o máximo que pode. Eu podia ver o cupon com os brinquedos colados, agora em pedaços. Em pânico me agaixei e comecei a tentar pegar os pedaços de papel, chorando. Ela me mandava largar, me mandava deixar tudo no chão como estava. Cada vez que eu ouvia o som do papel rasgando era como se um pedaço de mim se rasgasse junto. De onde havia surgido aquele pesadelo depois de uma noite de sonhos?

Não sei se vocês se lembram daquelas sandalinhas infantis Ortopé. Acho que muita gente da minha idade hoje já usou na época. Umas gracinhas de sandália que fechava com uma fivelinha. Acho que tenho uma foto delas. Vou postar:


Minha mãe penteou os meus cabelos do jeito que ela quis até quase meus 12 anos. Prender a fivela da sandália aprendi aos 5.
Depois do ocorrido, com a cartinha em dezenas de pedaços no chão, ela ainda furiosa me mandou para o quarto. Eu tinha pré escola, precisava me arrumar. O problema era como me arrumar, se eu estava morrendo de medo dela e não fazia idéia de como amarrar minhas sandálias sem ajuda.

Não me lembro mais hoje o tempo exato que fiquei dentro daquele quarto sozinho chorando, mas sei que foram mais de 20 minutos, isso eu garanto. Eu sei que depois disso, fui até a cozinha implorar o perdão dela pelo que ela havia me feito. E estava com as minhas sandalinhas perfeitamente afiveladas. Quem sabe talvez assim, ela não se sentiria mais feliz?

Dizem que aprendemos coisas pelo amor ou pela dor. Por um misto bizarro dos dois, hoje sou craque em afivelar sandálias.




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2 Divagações

  1. Pelo menos vc pode tirar uma coisa boa do acontecido,ficou craque em afivelar sandálias.

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  2. hahahaha... Pois é. Tudo tem um lado bom mesmo.

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