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Sobre as desvantagens da visão monocular e olhos marejados sob óculos 3D

quinta-feira, 24 de março de 2016

Minha primeira experiência com filmes exibidos em 3D foi há bastante tempo, creio que muitos de vocês ainda nem haviam sido expelidos do ventre de suas mães. Foi ainda no século passado, ano de 1999, se bem me lembro, quando do lançamento de A hora do pesadelo 6: A morte de Freddy: O pesadelo final. O primeiro filme exibido em 3D de que ouvi falar, pelo menos aqui em Bauru. Se houveram outros antes, desconheço. O caso é que, para os filmes, essa tecnologia era novidade na época. Lembro-me do alvoroço na ocasião, quando o filme foi anunciado. O cinema lotou de gente querendo ver as garras de Freddy Krueger saindo da tela, inclusive eu. Uau! Ia ser mágico, inigualável. Mas vamos crescendo, amadurecendo, passando por experiências que nos enriquecem e ensinam e descobrimos às vezes de forma triste, que na vida nem tudo são flores e para algumas pessoas, nem todos os filmes são em 3D. Mesmo com um cartaz na parede do cinema, avisando ao público que somente os últimos 15 minutos do filme seriam em 3D (acredito que na época devia ser caro produzir um filme inteiro assim), durante toda a projeção a plateia ficou colocando e tirando os óculos de papelão e plástico colorido, tentando em vão ver algum objeto saindo da tela. Como eu disse, embora tenhamos sido avisados, foi bastante decepcionante e muita gente saiu descontente do cinema. De minha parte não saí apenas descontente, mas ligeiramente deprimido. E não pelos apenas 15 minutos de 3D, mas também porque foi nesse dia que eu percebi, pela primeira vez, algumas das limitações que meu problema de visão me causaria. 


Para aqueles que ainda não sabem, sou portador de uma deficiência visual que me deixou com visão monocular. Traduzindo em termos leigos, pra você que não lê muito e gosta de reality shows, eu só enxergo com um dos olhos, o esquerdo. É uma malformação congênita conhecida como Síndrome de Morning Glory. Já escrevi sobre ela aqui no blog, pra quem se interessar em ler. Por sorte isso nunca me impediu de fazer nada, uso óculos de grau desde meus 3 anos, mas enxergo bem do olho esquerdo e levo uma vida normal desde sempre, chegando a me tornar inclusive, um maravilhoso designer. E designers desenham. Mas o caso é que nem tudo na vida você consegue enxergar com apenas uma das vistas, e descobri que uma dessas muitas coisas são filmes em 3D. Até então nunca tinha me preocupado em saber como é que isso funciona, mas descobri que para que o efeito 3D funcione, as duas lentes do óculos precisam se "misturar", a vermelha e a azul, gerando assim o mágico efeito. Mas se você enxerga apenas com um dos olhos e portando só vê uma das duas lentes, nada feito. Enfim, voltando a falar dessa minha primeira experiência, lá estava eu desacompanhado (como sempre estou, na maioria das vezes), com meus óculos de grau na cara e os óculos de papelão por cima, olhando pra uma tela escura, desfocada e avermelhada, tentando em vão compreender o que caralhos estava dando errado, já que todo mundo ao meu redor estava gritando, gargalhando e se esquivando dos objetos que vinham em sua direção, de dentro do filme. Eu? Eu estava ali sentado, pensando que talvez os meus óculos de papelão estivessem com defeito ou algo assim, com vontade de ir me abaixando na cadeira até sumir em um buraco no chão. O que seria perigoso, já que abaixo da sala de cinema ficava a bomboniere e eu com certeza despencaria de uma altura considerável. 


Muitos e muitos anos depois, no ano de 2008, a tecnologia mundial já havia evoluído bastante, o cinema do, até então único shopping aqui da cidade havia sido reformado, ampliado e agora tinha "modernas salas com exibição de filmes 3D". Os óculos já não eram mais de papelão, mas sim de plástico reluzente, parecendo aqueles do Ciclope, dos X-Men. Me lembro que pensei: "Puxa! Agora vai! Com óculos modernos assim, acredito que não terei problemas em ver esse tipo de filme". Fui então, belo e saltitante ao shopping, assistir Viagem ao centro da Terra, com Brendan Fraser. Lá estava eu, com pipoca tamanho jumbo no colo e uma Coca-Cola de 600ml em punho, parecendo ainda mais alienígena do que da primeira vez, com meus obrigatórios óculos de grau e, dessa vez, óculos 3D muito maiores e mais chamativos do que os antigos. Minha cabeça parecia estar pesando uns 20kg. Não me lembro quanto foi que paguei pelo ingresso, mas foi caro, o dobro do valor de um filme 2D, mas a novidade compensaria o gasto. Então começa o filme, menos avermelhado dessa vez, menos escuro, mas para minha angústia, ainda desfocado, trêmulo. Quando me dei conta, alguns minutos depois, que não importa, eu realmente não conseguia ver nada em 3D, realmente confesso, me deu vontade de chorar, não de tristeza, mas de chateação. Não é o fim do mundo, lógico, mas seria legal conseguir passar por essa experiência, também porque, pela segunda vez me senti idiota, babaca sentado ali, mal conseguindo ver as cenas do filme, enquanto todo o resto do público estava se divertindo em suas poltronas. A sensação de tempo e dinheiro desperdiçados foi um porre.

E chegamos a hoje, quando os filmes 3D já estão bem estabelecidos no mercado cinematográfico e 2 em cada 3 são lançados com essa tecnologia. Pra mim isso não é nada divertido, é bastante revoltante pra dizer a verdade, pois já deixei de ver alguns filmes que queria muito, os quais esperei o lançamento, as vezes por anos, porque quando chegaram aos cinemas foram exibidos somente em cópias 3D. Deixei de ver o primeiro Thor no cinema por conta disso e agora, com o lançamento de Batman vs. Superman: A origem da justiça, quase acontece o mesmo. Somente duas salas de cinema estão exibindo o filme em 2D e em horários pouco convidativos. Já até pensei em reclamar nas gerências do Multiplex e do Cinépolis aqui de Bauru, duas das redes de cinema mais famosas, porque afinal, inclusão social não é apenas rampas de acesso e cadeiras reservadas. Deficiência visual não é apenas ser completamente cego, é ter certas limitações que merecem ser respeitadas. Mas, creio eu que seria esperar demais das salas de cinema, afinal elas visam o lucro, podendo cobrar um preço bem mais salgado exibindo filmes em 3D.



3 Divagações

  1. Que legal seu relato, sou monocular de nascença e ja tentei duas vezes ver filme 3d, sou publicitário e fotógrafo, nunca fui bom em esportes e acredito que seja pelo fato de ser monocular. Faço boxe há 2 anos e estou aprendendo muito sobre minha limitação.
    Grande abraço

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    1. Obrigado pelo seu comentário. Não sei se é assim de um modo geral, mas a visão monocular nunca me atrapalhou de fato. Meu olho esquerdo compensou muito bem. Apenas de vez em quando, tenho esses pequenos contratempos chatos, mas que a gente aprende a conviver. :)

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  2. Pelo menos podemos concorrer a vagas reservadas a portadores de deficiência em concurso público...muitas vezes não dou conta de estudar o necessário pois a sensação de cansasso no olho "bom" (mesmo usando óculos) é enorme, ou seja, na hora de estudar e realizar uma prova sempre saio "perdendo"...tbm demorei a perceber que não conseguia enxergar em 3D, pois sempre achava que o problema era o óculos, a luz. Qq outra coisa, menos eu!!!
    Súmula 377 do STJ, que tem a seguinte redação: “O portador de visão monocular tem direito de concorrer, em concurso público, às vagas reservadas aos deficientes.”.

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