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Sobre cair, bater a cabeça, hora de morfar e conhecer a si mesmo.

segunda-feira, 11 de junho de 2018


Há alguns anos, conversando com um amigo pela rede mundial de computadores decidi contar-lhe que sou homossexual. Embora nos vejamos hoje raramente, nos conhecemos desde que ele era apenas uma criança e nos tornamos bons amigos. Gosto bastante dele e fosse qual fosse sua reação isso não me afetaria muito, claro que fiquei torcendo para ele reagir bem, mas nessa época eu já estava mais seguro de mim. Minha mãe e minha tia já sabiam da verdade e me deram muito apoio, isso já me bastava de certa forma, mas creio ser da natureza humana buscarmos acolhimento, nos sentirmos aceitos pelas pessoas que gostamos.
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Se ele ficou espantado com a revelação não pude perceber, afinal conversávamos por texto somente, mas mesmo que tenha ficado considero uma reação natural e aceitável, afinal, posso estar sendo ingênuo, mas não é todo dia que você descobre que um amigo seu, de longa data é gay.
Se passaram alguns poucos segundos e ele me respondeu: "Ah, tudo bem, normal pra mim. Tudo continua a mesma coisa". Todavia, o que me fez rir sentado na frente do meu monitor logo em seguida foi a pergunta que ele disparou, não porque me senti ofendido ou achei a pergunta ridícula, mas pelo tom inocente e amistoso: "Mas posso te perguntar uma coisa? Quando foi que você virou gay?"


Com calma, expliquei pra ele que, diferente do que muita gente pensa, ninguém "vira" gay, você não acorda hétero, se sente entediado e resolve virar gay para experimentar como é, tipo "É HORA DE MORFAR!". Por isso o termo "opção sexual" é algo completamente errado na minha opinião, embora também muitos insistam em dizer o contrário. Existem pessoas pouco instruídas que de fato acreditam que uma pessoa pode optar por ser homossexual, trans simplesmente por promiscuidade, que sente vontade de agir daquela forma por algum desvio de comportamento doentio e distorcido, mas não, algumas coisas sempre estão lá, mesmo que você não as perceba de início.
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Para as pessoas que se consideram "normais" é tudo muito preto no branco, oito ou oitenta. Se você nunca pareceu homossexual, se nunca demonstrou, mas de repente resolve "sair do armário", significa que você era hétero e decidiu se tornar gay, afinal homem é homem, menino é menino, macaco é macaco e viado é viado. Você deve ter caído, batido com a cabeça e ficado retardado ou algo assim. Esse tipo de pessoa não consegue refletir (na verdade nem quer faze-lo) sobre os pormenores da coisa, ela não consegue ver, não consegue aceitar que um ser humano possa ir se conhecendo, se descobrindo ao longo da vida, ir entendo aos poucos sentimentos que sempre estiveram com ele e que isso é perfeitamente normal e natural, faz parte do que é ser humano. Independente da orientação sexual, tenho pena de quem não reflete sobre si mesmo, sobre quem não busca descobrir quem é de fato. Sinto um medo nas pessoas em relação a isso, não falo apenas de sexualidade, mas no geral, de refletirem sobre si mesmas, de se auto analisarem. Vejo muito agente que acha que se conhece, mas que na verdade só quer afirmar suas próprias verdades e impô-las ao outro, que acredita que o verdadeiro, o moralmente correto, o comum é o que a sociedade espera de você, o que um livro escrito há tanto tempo, que já passou por centenas de interpretações diferentes espera de você.
Eu ainda não me conheço de fato, talvez vá embora desse mundo sem conseguir essa façanha, mas me sinto bem por ao menos tentar.





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