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Crítica pessoal: O verão das bonecas mortas.

domingo, 19 de janeiro de 2014


"Faz muito tempo que não penso em Iris nem no verão em que ela morreu. Acho que tentei me esquecer de tudo, da mesma forma que superei os pesadelos e os terrores da infância. E agora, quando quero me lembrar dela, só me vem à mente o último dia, como se essas imagens tivessem apagado todas as anteriores. Fecho os olhos e me transporto  àquela casa grande e velha, ao dormitório de camas desertas que esperam a chegada do próximo grupo de crianças. Tenho seis anos, estou no acampamento e não consigo dormir porque tenho medo. Não, estou mentindo. Naquela madrugada eu me comportei com bravura: desobedeci às regras e enfrentei a escuridão só pra ver Iris. Mas encontrei-a afogada, flutuando na piscina, rodeada por um cortejo de bonecas mortas."


Quanto a mim, meu caros leitores do desse irrelevante blog, lhes digo que faz muito tempo que não leio algo tão bem escrito, tão instigante e viciante como o último livro que comprei, agora no início do mês de janeiro, ainda na firme intenção de retomar o gosto pelo hábito maravilhoso da leitura. Feliz em lhes dizer que até agora tenho obtido êxito na minha empreitada. Além do mais, recomeçar a ler tem me feito não pensar em um monte de problemas e tristezas que, pelo menos de minha parte, considero recentes. Mas falemos do livro.
O verão das bonecas mortas, publicado no Brasil pela Editora Tordesilhas, foi escrito no ano de 2013 pelo espanhol Toni Hill, graduado em psicologia, tradutor de obras literárias há mais de dez anos e colaborador do meio editorial. O verão das bonecas mortas foi seu primeiro romance, e eu, agora que terminei a leitura, posso opinar com segurança: ele começou muito bem.

O livro é um romance policial ao melhor estilo de seriados de televisão como CSI, com uma estória que te prende do começo ao fim, personagens bem construídos, uma atmosfera densa e o que considero mais relevante em um conto de mistério e suspense: muitas reviravoltas inesperadas que acabam por fazer você querer continuar a leitura ininterruptamente.
A trama macabra (que descobri, boquiaberto, no final do livro, não para pro aí), foca no detetive Héctor Salgado, que acaba de voltar de suas férias "forçadas" e está sendo investigado pelos seus próprios companheiros da polícia, após perder o controle e agredir quase que fatalmente o suspeito de um caso de tráfico de mulheres. Designado para investigar extraoficialmente a misteriosa morte de um jovem, membro de uma poderosa e importante família de Barcelona, Héctor acaba descobrindo ao longo da investigação que o que parecia se tratar de um mero caso de suicídio ou acidente, pode na verdade ocultar segredos sombrios e perturbadores de pessoas aparentemente acima de qualquer suspeita.

Como sempre acontece, quando vi o livro na vitrine da livraria da universidade, me encantei de imediato pela combinação do nome e capa do romance. ambos de uma morbidez que me encanta. Deduzi no mesmo instante tratar-se de uma estória policial, e não de um conto de terror ou fantasmas, apesar de, imagens de bonecas, ainda mais bonecas velhas, sempre me remeterem ao sobrenatural. Mas já que eu estava na certeza de que realmente queria ler mais um livro após terminar A trégua, de Mario Benedetti, então que fosse esse. Algo me dizia que não iria me arrepender. Para mim, o livro funcionou exatamente como um bom filme ou seriado policial, como disse mais acima. Começou morno, apesar de interessante, mas isso, hoje eu sei, no caso de bons livros ou filmes, faz parte da estratégia do autor, em fazer você se iludir, achando que tudo vai ser óbvio, que já descobriu o final da trama antes mesmo de chegar na metade da leitura, para depois surpreendê-lo com um desfecho que você realmente não esperava.


O verão das bonecas mortas, de início, particularmente me lembrou um daqueles antigos livros da, acredito que hoje já extinta, Série Vagalume, não sei se vocês se lembram, eu lia muito nos tempos do ginasial, mais especificamente, O Escaravelho do Diabo, de Lúcia Machado de Almeida. Recomendo. Com uma narrativa clara, direta, sem mais rodeios do que o necessário, o espaço necessário para cada personagem se desenvolver e para que você possa reconhecê-los individualmente e de certa forma, apegar-se a eles positiva ou negativamente.
Embora cativante, a trama segue morna, como disse antes, até a metade do livro, com suas 372 páginas, mas à medida que vai se desenvolvendo, com seus personagens que antes, pareciam nada terem em comum uns com os outros, à medida em que perguntas sem respostas vão gerando apenas mais perguntas sem respostas e becos que parecem sem saída, o que era morno começa a fervilhar em sua cabeça e, junto com o detetive Héctor, sua subordinada Leire Castro e alguns dos envolvidos no macabro caso, você mergulha na investigação, ansioso por descobrir o que realmente aconteceu com o jovem Marc Castells. Suicídio, um mero acidente, assassinato?


Sobre o Autor:
Eduardo Montanari Nascido e ainda morando na cidade de Bauru, interior do Estado de São Paulo, sou estudante de Design e trabalho como designer e web designer, áreas pelas quais tenho muito interesse. Amo cinema, quadrinhos e boa música.



4 Divagações

  1. Muito boa a sua atitude de voltar a ter o hábito da leitura Eduardo. Você faz boas resenhas que despertam o interesse pelos livros.

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  2. Putz cara, O escaravelho do Diabo marcou minha adolescência literária, se assim posso dizer rs. Me lembro como se fosse hoje. La no colégio tinham acabado de inaugurar uma biblioteca e todos os alunos tinham o direito de levar um livro pra casa por um período de duas semanas e depois devolve-lo. E foi justamente esse livro que eu peguei, confesso que até então, nunca tinha me interessado por livro algum, mas esse livro me pegou de um jeito, que eu nunca mais esqueci dele. Eu vou seguir sua indicação e pegar O verão das bonecas mortas. Confesso que também preciso dar um upground no meu hábito da leitura.

    Abraços Edu

    Caraca cara, O Escaravelho do Diabo... Viajei no tempo aqui agora, era uma época muito boa, na época em que eu li esse livro, muitas coisas legais estavam me acontecendo

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    1. Eu gostava de chamar o livro de "O bizôrro do demo".

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